À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 19 de agosto de 2017

(arquivo) Sociolinguística | "OKO" ou "HOKO"? BREVE NOTA SOBRE O USO INCORRECTO DA INTERJEIÇÃO UMBUNDU EMPRESTADA AO PORTUGUÊS DE ANGOLA

Quando estiver a usar “oko” e “aka” para interjeição, você estará a fazer tudo, menos acertar. É que tem crescido nos últimos tempos, principalmente na comunicação coloquial das redes sociais, o uso de duas interjeições da língua Umbundu, as quais pretendem transmitir simultaneamente admiração e reprovação. O que faz confusão para quem acompanha com alguma acuidade é que se multiplica e populariza cada vez mais a gralha. O correcto seria “hoko!” e/ou “haka!”, isso mesmo, com H, aspirado, correspondendo ao português “Irra!”, “caramba!”. “Oko” tem outra função, a de advérbio de lugar, quer dizer lá. Por exemplo, “kwende oko” (vai lá mais é). “Aka” também é pronome demonstrativo, quer dizer este ou esta, mas com conotação diminutiva. Por exemplo, “okamõlã aka” (esta criancinha).
Talvez seja já demasiado tarde para a presente chamada de atenção, olhando para a experiência negativa no que respeita ao uso por empréstimo de termos e expressões de origem africana (Bantu) à língua portuguesa. Geralmente, dada a velha questão de status inclinado, a língua portuguesa acaba impondo corruptela, na ausência de rigor ou interesse para um mínimo exercício de pesquisa sobre o sentido, grafia e uso correcto da palavra, como ocorre por exemplo com a palavra "kota" (irmão mais velho), que emprestada à língua portuguesa virou "cota", facilmente confundida com indicador estatístico.
Por favor, quando quiser usar as palavras para expressar admiração/reprovação, não coma o H, se faz favor. É “hoko!” ou “haka!”.

Gociante Patissa. Benguela, 17 Agosto 2016

terça-feira, 25 de julho de 2017

EXERCÍCIO PARA TRADUÇÃO UMBUNDU-PORTUGUÊS (por favor, fazer também uma contextualização da mensagem)


"Nda olete apa okasi vakwene vakutukula ño l'uwa; vomenlã wavakwene, vosi vakusole ño calwa, oco ove ove okasi vemehi. Pwavakwene ove usuke po vali enene. Eci ño ofetika ndokuvotokapo kamwe, akuti ohali ndayu yipita, unvi wufetika." (adaptação de citação que ouvi ontem)
Handi oco ño lika. Ndapandula (Ainda era só isso. Obrigado)

domingo, 23 de julho de 2017

sábado, 8 de julho de 2017

Exercício para tradução UMBUNDU - PORTUGUÊS

"U ndeti itangi vyaye vyalwa. Nda wotumalelã, wiya oñoño; nda wokwmakwama, wiya onjanda."
(expressão satírica que ouvi do primo/irmão Malaquias Nejo Patissa)
Handi mba oco lika. Ndapandula (Ainda era só isso. Obrigado)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Exercício de tradução Umbundu-Português | "OMBYALI YETU YATWAVELA SUKU YIKASI LOKUPITA"

"OMBYALI YETU YATWAVELA SUKU YIKASI LOKUPITA"
(anúncio sonoro registado no município da Tchikala Tcholohanga há 12 anos)
Alguém aí com energias e vontade para mais este desafio de praticar a língua/cultura Umbundu? Ndapandula (obrigado)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Exercício para tradução | TRECHO UMBUNDU DE HINO CRISTÃO DA I.E.S.A

"A ndaululi, weh!"
"Ewa!"
"Ndotusapwile ko..."
"Ndisapula nye?"
"Owola ye tukasi cilo? Sanga tusima tuti selo, osimbu pwãi okuti etu twacilwa."

Alguém aí com garras para arranhar a empreitada? Handi oco lika. Ndapandula (ainda era só isso. Obrigado)
www.ombembwa.blogspot.com

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Oratura

Olusapo kUmbundu: "Eye ka vindila oña velamba" (calomboloka: nda ovinda omunu, kwenda osanga onã, kayisi vutwe. Esinumuinlõ: eye kohã nda olete cimwe cinvi)

Tradução literal: não é de deixar o piolho dentro da trança, quando for ela a trançar o cabelo a alguém.
Explicação: Não leva desaforos para a casa.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Top Benguela Acácia de Ouro | PRÉMIO SUNGURA DO ANO

Sukumunlã, que na língua Umbundu pode ser entendido como o imperativo do verbo descarregar (oku sukumunlã), do qual se infere que o artista se assume como uma fonte inesgotável de mensagens, é uma das vozes que melhor interpretam o cancioneiro popular, o qual "despeja" numa cadência de sungura. Para além da sua inusitada energia em palco, carrega a melancolia sobre o canto proverbial e as parábolas que constituem a matriz da região. Apesar de ter merecido numa carreira de quase duas décadas algumas distinções a nível local, dentre as quais o Prémio Provincial de Cultura e Artes, Sukumunlã continua sendo um desconhecido do grande público, fundamentalmente por culpa dos critérios do mercado, que fazem culto ao oco e a outros critérios fora do espírito da arte (estética e culturalmente falando) com um empurrão da comunicação social. O TOP BENGUELA ACÁCIA DE OURO teve a sua edição inaugural ontem (18/05) nesta cidade, numa iniciativa de Adão Filipe, pela Rádio Nacional de Angola.

Cultores da música tradicional Umbundu homenageados | JOAQUIM VIOLA E FLAY MERECIAM MAIS

Flay
Joaquim Viola (esq.) recebendo diploma 
das mãos do Vice-governador Victor Moita
A organização do Top Benguela Acácia de Ouro, da iniciativa da Rádio Nacional nesta cidade, cuja edição de estreia aconteceu a 18 de Maio durante as festividades dos 400 anos da cidade de Benguela, atribui diploma de mérito a algumas figuras do sector da cultura, entre promotores e apoiantes, pela sua relevância. O destaque do blog www.ombembwa.blogspot.com vai para dois nomes incontornáveis na recolha, tratamento e divulgação da cultura musical da região Umbundu, designadamente o mais velho Joaquim Viola, autor do clássico Tchiunge, e Flay, da Catumbela e radicado em Luanda, autor dos originais "Sassa Motema", "Doçura", entre outras adaptações do folclore. São duas gerações que parecem ligadas por um mesmo factor, o pouco incentivo e visibilidade da sua vertente. Nestes casos, palavras à parte, é nas entrelinhas e no tom nada radiante dos discursos que se capta o estado de alma dos artistas. "Estamos a deixar o palco para os mais novos que querem abraçar a carreira", disse Joaquim Viola. "É uma honra muito grande para mim ser homenageado hoje ao lado dos Impactos4, em quem me inspirei para começar a cantar e fazer música", acrescentou Fay. Eles mereciam, de facto, mais, a começar mesmo pela divulgação das suas músicas, o que na última década tem sido bastante esporádico, com uma agenda discográfica das rádios e televisões muito voltada à "música" urbana, servida em doses e entulho electrónico.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

quarta-feira, 12 de abril de 2017

(arquivo) ORATURA

"Oku cita osoma ha co ko oku yovoka; cimwe vakwene vosivaiya, ove u njali ofila mwenle opo" (*)

TRADUÇÃO - Ter um filho rei não é necessariamente estar a salvo; se calhar ele é louvado na rua, mas tu em casa morres na desgraça

(*) palavras de uma tia minha em jeito de moral de um conto que ela partilhou comigo, o qual reproduzirei em Umbundu e Português quando tiver um pouco mais de tempo e calma.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Entrevista | Gociante Patissa: Em Angola línguas nacionais tem um "status" secundário | Áudio | Acaba de sair a SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA QUE CONCEDI À RÁDIO VOZ DA ALEMANHA DURANTE A PRESENÇA NA FEIRA DO LIVRO DE FRANKFURT, ao microfone da repórter Nadia Issufo

Política linguística deve ser revista para dar um estatuto as outras línguas nacionais, reivindica escritor e linguista Gociante Patissa. Para ele, promoveu-se o português e descurou-se das outras, promovendo a exclusão.
E o seu primeiro prémio, enquanto escritor, deveu-se ao empenho na divulgação do Umbundo, sua língua materna. A DW África conversou com o escritor angolano sobre a política linguistíca em Angola.
DW África: É linguista e o seu primeiro prémio deveu-se ao seu empenho na divulgação do Umbundo. Alia sempre a sua formação às suas obras?
Gociante Patissa (GP): É inevitável por um lado. Por outro lado, sou um ser insatisfeito em relação à questão da política linguística em Angola. Penso que criamos um monstro chamado língua portuguesa e descuramos do resto. E às vezes compreendo, penso que houve uma necessidade  ao longo dessas décadas de conseguir um equilíbrio enquanto nação, fazendo desse conjunto de nações uma só, já que por detrás da língua há outros fatores. Mas é altura de repensarmos, há pessoas que vão nascer, crescer  e morrer sem lhes fazer falta a língua portuguesa. Então, uso as técnicas científicas para ao meu nível promover a minha língua, o que é difícil porque temos ainda o problema da dualidade de grafias. Não entendo porque uma língua tem de ter duas grafias diferentes, vamos falar da colonização e da igreja, mas as línguas são anteriores a colonização e a igreja. O católico e o protestante falam a mesma coisa, mas quando chega a hora de codificar codificam diferente. Isso depois tem como consequência o desencorajamento da produção em línguas nacionais, como é que vão ler?
DW África: Ainda sobre a política linguística em Angola, no que se refere a promoção das outras línguas nacionais o que gostaria de ver melhorado?
GP: Muita coisa, primeiro é a questão da política do Estado e o Estado tem de assumir isso, mais do que tem feito até agora. Sei que há um estudo de harmonização. Em 2012 fui entrevistado por uma jornalista inglesa e soube através dela que tinha sido encomendado um estudo a um académico africano para a harmonização ortográfica das línguas de matriz Bantu. Até hoje, volvidos 20 anos, não se sabe pelo menos o ponto de situação. Depois é a maneira como se olha [para elas], o status secundário é atribuído as línguas nacionais. O jornalismo, por exemplo, é feito em língua portuguesa, mas quando se fala em jornalismo em línguas nacionais na verdade não é jornalismo, é tradução a quente do texto em português e as deturpações que disso advém. Portanto, é preciso dar as línguas os estatutos que elas merecem. Tem de se fazer muita coisa, estou a reclamar do Estado porque ele é o decisor e quem superintende ao nível macro as políticas. Mas depois há também há questão do cidadão, por exemplo, na rua, eu falo muito bem o umbundo melhor até que o português, se eu saudar uma varredora de rua [em umbundo] ela me vai automaticamente responder em português, porque ela interpreta que lhe estou a desqualificar. Naturalmente há algumas províncias que dão algumas expetativas, eu gosto de ir ao Humabo, lá há menos complexos do que há em Benguela e em outras províncias, mas ainda assim não satisfaz. É preciso dar um suporte a isso. Por dia a televisão tem cerca de meia hora de noticiário em umbundo, o que é meia hora? É nada.
Schulkinder in Kuito
Uma escola primária no Kuito, Angola. No país o ensino é principalmente ministrado em português
DW África: No seu percurso houve também uma passagem pela rádio, aliás, o que também transportou para a sua escrita. Gosta da forma como se faz rádio em Angola?
GP: Não, não gosto porque tenho estado a ler muito e leio um autor cubano que se chama Ignácio Virgil?? que diz que a rádio deve transmitir a vivência da comunidade. E atualmente penso que o conceito de rádio é um pouco elitista e de exclusão, faz-se muito o trabalho de estúdio, fala o artista, fala o empresário, fala o comerciante, fala o governante e às vezes fala o académico, [mas] o cidadão comum não fala para a rádio, a não ser que tenha saldo para o telefone ou que tenha cometido um crime e queira prestar contas a sociedade. Eu gostaria de ter uma rádio mais virada para a integração, para a promoção cultural, uma rádio onde a pauta informativa não relegasse para o fim do noticiário, por exemplo um evento cultural. Temos rádios especializadas no desporto, poderíamos pensar em rádios especializadas na cultura. Já há um jornal, infelizmente é quinzenal e tem uma circulação bastante complexa e limitada. Gostaria de uma rádio, mas não banal, que saiba ser o rosto da comunidade.
DW África: Há no seu país uma restrição considerável no que diz respeito a abertura de rádios. Com vê isso no contexto do acesso a informação e da liberdade de imprensa?
GP: Deixei de fazer jornalismo há alguns anos, então não estou tão inteirado sob o ponto de vista dos "dossiers" do assunto e é um pouco arriscado tecer comentários mais profundos quando a gente não está tão familiarizada com os assuntos mais recentes da área. Mas eu acho que é complexo, pelos debates que vou acompanhando o quadro que se avizinha não é muito bom porque primeiro mata a figura do freelancer. Doravante fazer jornalismo significa pertencer a uma empresa, isso faz com que a subserviência seja ainda maior, porque se você for minha diretora e eu refilar consigo automaticamente eu deixo de fazer jornalismo. E outra coisa, havia uma esperança de abertura de rádios comunitárias e penso que no atual figurino as rádios ainda não forma contempladas. Então, o que vai acontecer, vamos ter uma relação muito tensa entre o profissional as entidades empregadoras, penso que não é um quadro muito bom. Era bom ouvir o outro lado também, temos estado a ouvir o outro lado das pessoas que são contra o espírito da nova lei, então era bom ouvirmos o outro lado e percebermos os seus fundamentos. Mas penso que o quadro que se avizinha não é de todo próspero.
DW África: Tem um blog ou dois?
GP: Tenho dois, o Angodebates, que generalista e o Ombembwa, palavra umbundo que significa paz. Inicialmente [este último] era para ter mais conteúdo de natureza linguística, mas não tenho tido muito tempo para fazer pesquisa, então é mais passivo que o Angodebates.
Frankfurter Buchmesse, Gociante Patissa, Schriftsteller aus Angola
Alguns livros de Gociante Patissa
DW África: Os seus blogues são uma plataforma para o seu mundo literário?
GP: Sim, mas agora há uma inversão, quando começou o maior número de leitores era de Portugal, Brasil e só depois de Angola. Depois houve uma inversão, penso que há duas variáveis: uma é que houve melhorias em Angola no acesso a internet, não podemos negar isso, e por outro lado penso que passou a haver também maior interesse para o consumo interno dos blogues. E é interessante porque essa inversão surge numa altura em que já há o Facebook e outras plataformas que poderiam distrair. E os meus blogues, tal como o Facebook acabam também por divulgar a minha obra em quanto escritor, Vou lá colocar fragmentos, há contos que na verdade evoluem de crónicas, é uma estrada de dois sentidos.
DW África: Homem de muitas paixões, já vi que não se separa da sua máquina fotográfica. Fale-nos desse mundo também...
GP: Vivo profissionalmente numa área que não gosto, acho que nunca gostei e nunca vou gostar. Respeito e tenho uma atitude profissional, mas se não faço arte eu expludo. Trabalho há quase dez anos na aviação, não é uma área que me apaixona, não sou hipócrita e não finjo que me agrada. Tenho bom emprego, mas em termos de  natureza da atividade não é o que gostaria [de fazer]. E isso empurra-me com cada vez mais energia para aquilo que eu gosto. A minha ligação com a fotografia tem também a ver com a sobrevivência, quando aos 15 anos precisei de arranjar emprego para pagar os meus estudos na sétima classe fui bater a porta a uma casa de fotografia, penso que já havia uma relação. Então aprendi a fotografar, mas numa perspetiva mais comercial, mas ao longo desses anos sempre fui fazendo fotografia de autor e nos últimos tempos, com um pouco mais de recursos, fui evoluindo. Faço umas mais documentais e outras artísticas, é uma paixão muito grande. Acho que no futuro, na reforma, eu já a andar de bengala vou dedicar-me só a fotografia.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Onjimbi londuko ya Diabick yatusyapo. Watula omwenyo. Vati cakala henlã mumwe vocitumãlõ cuhayele vombala yofeka. Eye wainda lokuvela anyamo valwapo naito. Ovisungo vyaye vikoka upongo cilo.

UMB: Onjimbi londuko ya Diabick yatusyapo. Watula omwenyo. Vati cakala henlã mumwe vocitumãlõ cuhayele vombala yofeka. Eye wainda lokuvela anyamo valwapo naito. Ovisungo vyaye vikoka upongo cilo.

PORT: O músico chamado Diabick deixou-nos. Poisou o fôlego. Informações disponíveis indicam que foi ontem na capital do país. Andou doente nos últimos anos. As suas músicas neste momento remetem ao pranto.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

sábado, 7 de janeiro de 2017

Umbundu é a segunda língua do país

(Texto e foto: Jornal de Angola, 6 Jan 2017)

O umbundu é a segunda língua mais falada em Angola, representando 22,96 por cento da população, o que corresponde a cerca de 5,9 milhões de pessoas, depois do português, que é falado por 71 por cento da população.

Depois do português e do umbundu aparecem o kikongo, com 8,3 por cento, e o kimbundu, com 7,8 por cento. Seguidamente vêm as línguas côkwe, nganguela, nyaneka, fiote, kwanyama, luvale e muhumbi com percentagens que variam entre os três e um por cento.
Os dados são do Censo Geral da População e Habitação, o primeiro realizado depois da proclamação da Independência Nacional, em 11 de Novembro de 1975, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

A população angolana é constituída por 25,7 milhões de habitantes, dos quais 12,4 são homens, o que corresponde a 48 por cento, e 13,2 são do sexo feminino, o que corresponde a 52 por cento.

O último censo realizado pela administração colonial portuguesa ocorreu em 1970 e mostrou que a população era constituída por 5,6 milhões de habitantes.
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Nota do blog Angola, Debates & Ideias: Investir na actualização do código da grafia (línguas Bantu), que é bom, para daí incentivar a produção de bibliografia e literatura diversa nessa tal segunda língua, isso é que quem de esquerdo não prioriza

domingo, 1 de janeiro de 2017

Para falantes de Umbundu | EXERCÍCIO DE TRADUÇÃO DE TRECHO DE HINO CRISTÃO (IESA) | Vale ou um livro ou um mosquiteiro

"Tukwete Suku oli lomwenyõ
Twakolapo
Suku yetu ka pongoloka
Twakolapo
Ovitima
Vyetu
Ka vi ka tokotelwe
Levi tulete
Pamwe vyevi viyevala
Twañwaliwã lolohoka vyaYehova
Cetu okuhã
Momo Eye otuyakelako
Cetu okuhã
Momo Eye otuyakelako"

Tempo a contar. Mãos à obra
www.ombembwa.blogspot.com

Conto | "UMWE WAYONGWILE UKEMA" / "O FULANO QUE QUERIA FAMA" (sabedoria popular em Umbundu e Português)

Foto: Rede Angola
Umbundu | UMWE WAYONGWILE UKEMA (*)

Kwakala ukwenje umwe wainda lesakalalo, cokuti lotulo ka kwatele. Wainda lokulipulapula ukwenje wu ndeti. "Cilingila nye okuti, ame ndicimumba cocimatamata, letosi lyukema si kwete?! Cilingila nye okuti layumwe ño, vimbo, ofetika ombangulo yokuti nditukwiwa ame?”
Ukwenje wiya ocisokolola swim… okwiya wakwata ocisiminlõ cimwe “culoño”. Wavanjiliya okuti, catete, kuyuna omunu oyongola ukema, okukulihã pi pakasi omwenyo womanu vimbo. Etambululo lyeli okuti: povava! Omo okuti, ndaño mwenle cina oholwa, alopo yinywã ovava.

Cina mwenle okuti ka kwacile ciwa handi, ukwenje mba olimba vonjila yokocisimo (ale onjombo). Eci apitinlã vali, ka suminle: ofetika okuniã. Eyumbu lyocili, halyo lihenlã syõ, pomenlã wonjombo yovava vokunywã. Noke eye wasyapo oluhaku waye. Olondona eci vyakapitinlã lomenle, oco vitape ovava, vyasaña okuti, hayo!, elundu lyeniñã lyekongo. Vokasimbusimbu, olwiya wowo kowiñi. Eci tumõla nye?!

Ukwenje kefetikilo wasanjukile, ndayu ocipango caye catelinsiwa. Pwãi, oku ceya okupitinlã, ema lyolyo ho. La Sekulu yimbo, Soma haye tiyu yayi, wovanjela ovitangi. Oco Nda hem tulinga tuti Soma ocilyangu, yu wanyõlã ocimumba caye? Cilingila nye okuti ukulu wendamba okulonga ovimumba ka citenla, vakwê?!

Osapi yondaka tunõlãpo yeyi okuti: onjila yokusanda ukema ciyongola okuyenda ciwa, momo ukema kuli vo una ka waposokele.

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(*) Olusapo woponjango kimbo lyetu.
Gociante Patissa, vo Mbaka, keteke lyakwim vavali, kosãi ya Kupemba, kuyãmo wolohulukãi vivali lekwim la umosi
www.ombembwa.blogspot.com
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Português | O FULANO QUE QUERIA FAMA

Havia um jovem que andava bastante aflito, o que resultava em insónia mesmo. Não parava de se questionar. “Como é que eu, sobrinho de entidade, não tenho um pingo de fama sequer?! Como é que, na aldeia, nunca sou objecto de conversa?”

Pôs-se então o jovem a matutar… até que teve uma “sábia” descoberta. Notou que, o básico para quem procura fama, urgia determinar onde reside a “vida colectiva”. A resposta foi: na água! Porque até o mais incorrigível dos bêbados bebe água.

Foi pela madrugada em direcção ao poço. E sabia bem o que fazer assim que chegasse. Tanto o sabia como o fez: defecou ali mesmo. Certificando-se de ter expelido bosta em volume (e fedor) suficientes para os fins publicitários que se propunha, cuidou de deixar ali a sua alparcata. Algum tempo depois, foram chegando, uma atrás da outra, as donas de casa, na tradicional missão de acarretar água. A palavra espalhou-se à velocidade de cruzeiro.

Satisfeito da vida estava o jovem, que se (ou)via na boca do povo pela primeira vez na vida. Mas pouco durou a alegria, porque se começou a questionar até que ponto o regedor não seria bruxo e passado o mal para o sobrinho. De outro modo saberia impor autoridade de encarregado em relação ao sobrinho.

Moral da estória: na procura da fama alguma moderação é necessária – é preciso não procurar a cadeira com o cú – pois nem toda fama é positiva.
(*) Contos contados nas fogueiras da Nossa Terra.

Gociante Patissa, em Benguela, no dia 25 de Maio de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

(arquivo) Oratura | KAPALANDANDA, UM HERÓI INJUSTAMENTE ESQUECIDO?

1. NOTA PRÉVIA


Você já ouviu a expressão «no tempo do Caprandanda?» É provável que sim, apesar do seu erro crónico. O correcto seria grafar Kapalandanda, pois não temos «R» na língua Umbundu, ao passo que o «C» é pronunciado [t∫i], e como tal diferente de «K».

Como veremos mais adiante, a história de Angola pode estar a cometer uma injustiça por omissão, relativamente ao papel heróico da figura do sul que atende pelo nome de Kapalandanda. A dúvida académica que fica é: que critérios foram usados para enaltecer Mandume, Lueji, Njinga, Ekwikwi e entretanto nada se dizer oficialmente de Kapalandanda? É que para além de ser personagem de um tema de evocação no cancioneiro Umbundu, de si muito explorado até 1991 enquanto trilha sonora pela Vorgan [Voz da Resistência do Galo Negro], rádio da Unita [então forças rebeldes na guerrilha], pouco ou nada da figura de Kapalandanda se passava de geração em geração.

A minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a residência se confundia com dependências das administrações comunais da Equimina e Kalahanga (não ao mesmo tempo). Como a circulação de pessoas e bens era mediante guias de marcha, “trabalhei” como dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário e/ou Administrador Comunal, mas sobretudo como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e Benguela, na maioria destes casos até… a pé.

A exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da política (talvez se deva a isso o facto de me ser hoje inócua). Evidentemente, havia parentes que (às escondidas) não alinhavam com o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a ouvir a Vorgan, com o volume baixinho. A trilha sonora dizia: «Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila /eh/ walilila ofeka yaye»  (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/ Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi ele e chorou porquê? GP

2. AGORA O PERFIL DE KAPALANDANDA E SUAS FAÇANHAS:

Reproduzimos a seguir, com pequena adaptação do blog www.ombembwa.blogspot.com, o valioso contributo de Carlos Duarte, publicado no «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Luanda, Abril/Maio 2014:

«Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento, pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.

Quando os colonizadores tomaram conhecimento, foram falar com o Soba para que tomasse providências e acabasse com essa resistência. O Soba reuniu os melhores guerreiros e ordenou-lhes que fossem pegar Kapalandanda. Mas o resultado foi o contrário do previsto. O grupo de Kapalandanda dominou e derrotou fácil os guerreiros de Kulembe. Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo o Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo guerrilheiro.

Mas Kapalandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários dos kimbos saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe deu condições de espera-las para o confronto, em local que lhe era propício, anulando assim a vantagem das armas de fogo.

Uma vez mais a tropa de Kulembe foi derrotada, e Kapalandanda ficou melhor armado. Os colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa, comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kapalandanda. O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kapalandanda saiu derrotado e ele levado preso, primeiro para o Forte da Catumbela, e depois para S. Tomé.»

Ao ler este relato de Duarte, evidente se torna que a história de Kapalandanda merecia ser mais divulgada, o que representaria um importante precedente pelo levantamento de mais bravos filhos que deram a vida para chegarmos a Angola independente.

Gociante Patissa, Benguela, 24.12.15 (Foto ilustrativa)
www.angodebates.blogspot.com

PS:
EIS O KAPALANDANDA (Na sequência do debate)
Recorte acabado de receber do amigo Tomás Gavino Coelho, dizendo o seguinte: «Este escrito é do benguelense Augusto Thadeu Bastos (1873-1936), e descreve como o Kapalandanda era visto pelo poder colonial. Abraço e boas entradas!»

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Conto | NO REINO DOS RASCUNHOS

O velho estava velho, muito velho, logo doente. Para ser confirmado inerte, só lhe faltava parar o fôlego. Vendo bem, aquilo até podia ter outro nome, respirar é que não era.
Humilhante o que a velhice faz! É que a pessoa já não é pessoa… Onde é que já se viu um rei que usa bacio?! Até em aldeias frequentadas por tigres, hienas e leões, os homens fazem as necessidades longe dos olhos da família: ou atrás da montanha, ou protegidos pela noite. Mas o caso dele era pior, já que desapertava mesmo nas calças, logo um soberano… A sorte era ter bonsvasekulu-vonjango[1] e akwenje-velombe[2] que sustentavam as aparências.
Um ano naquela situação, era inevitável a substituição. E o herdeiro tinha de ser alguém com ligação consanguínea ao soberano, seguindo os paradigmas do poder real. Havendo descendentes, a cadeira não passa para outra família. Ora, tendo filhos machos, estava fora de questão cooptar um sobrinho da linhagem matrilinear, que alguns costumam julgar mais legítimo do que o próprio filho, na desconfiança de que só a mulher conhece em bom rigor o verdadeiro autor da gravidez (mas é melhor não irmos por aí, que isso é maka para outros contos que não este).
O soberano tinha três lares e um bom número de filhos mas, na hora de sondar o sucessor, foi prioridade a casa mais-velha, a da primeira mulher. Teoricamente fácil, mas difícil na prática, pois havia dois filhos varões com a mesma idade, porque gémeos. Normalmente, é mais-velho o que sair primeiro, e ganha o nome de Njamba[3]; o segundo é Hosi[4]; o terceiro, caso se chegue a tanto, é Ngeve[5]. Costuma-se contar com a perícia da mãe em colocar sinal para os distinguir. Mas, oh tragédia, ela fez o trabalho de parto sem assistência, tendo perdido os sentidos a dado momento e com eles a certeza da ordem de nascimento.
Urgia o desempate para o êxito do ciclo milenar. Como? E lá surgia detalhe de peso para um dos gémeos que, recordo, nada provava que fosse o Njamba. Tinha, sim, uma namorada, cujos pais gozavam de boa reputação, portanto virtualmente com estatuto de casado. Uma vez identificado o sucessor do Rei, aos conselheiros cabia a missão de o formatar, não obstante a irónica fatalidade de não terem sangue nobre nas veias e, por conseguinte, virem a ser súbditos de franganote.
No ano seguinte, a investidura do Rei-filho durante o varrer de cinzas, sete dias após o funeral. Das três ovimbumba[6], a primeira permaneceu naOmbala[7], junto dos filhos. As demais foram devolvidas em cerimónia própria às respectivas famílias, uma espécie de fim de mandato. Eram muito novas, é preciso dizê-lo, e seria escândalo se viessem a ser cortejadas ali. Isso é que não!
Cacimbos e remoinhos dissolvem lágrimas, todas elas, e amainam corações. Cada colheita traz um novo ano, enquanto nos contos e nas canções ganha a cultura. Conversa é a chuva nos trilhos da enxada para bagres de rios e lagos, a semente, o trabalho, a esperança, enfim, a vida que continua.
Quanto mais deslindasse os bastidores do poder, mais inconstante a sensação de realizado. Nem as duas décadas no trono impediam o Rei de viver, às vezes, o reflexo do bambu, em que o diâmetro aparente é proporcional ao vazio interior. E tinha as suas razões. Uma delas era a incerteza da ordem de nascimento, que ditaria quem dos gémeos o mais velho e sucessor. Teria usurpado a predestinação do irmão? De nada adiantava culpabilizar a mãe, cuja perda de sentidos no momento do parto causara tão fatal incerteza. Incomodava-lhe, por outro lado, e talvez em maior grau, uma máxima em particular: «kapiñala ka lisoki la mwenle[8]».
Em salas pequenas, o professor domina a turma, o que não garante determinar de que bunda vem cada peido. Um Rei domina a aldeia, sem que possa localizar precisamente de que boca vem cada má-língua. E as inúmeras madrugadas de insónia levaram o soberano a pensar, a propósito e a despropósito, até brotar uma estratégia de gestão que viria a revolucionar o Reino. Uma vez achada, coube aos assessores convocarem uma espécie de comício.
Na data marcada, os aldeões iam chegando à praça. Nunca são poucos. Mas já o Rei estava debaixo da mulemba, alimentando pelo facto certa especulação, pois era antes de o sol raiar, a hora combinada.
— Serei breve, ó aldeia do meu sangue. — justificou-se o Rei, um tanto misterioso, ao tomar a palavra. — Tenho andado pelas lavras e não pensem que não sinto a alegria do êxito do cultivo. Ninguém lamenta a falta de peixe do rio nem de carne de caça, é porque também estamos bem. Há dez anos e tal que não amarramos gatuno. A nossa aldeia é um espelho de água. Ainda assim, algo me fere o coração. Desde os nossos ancestrais que, na Ombala, a única morte que conta é a do Rei. Será justo?! São os conselheiros que fazem um Rei ao longo das sucessões. Se assim é, está na hora de os homenagearmos!

A assistência não sabia definir o que sentia, pois nunca ninguém ousou pensar até ali. De modo que custava antever aonde o Rei queria chegar. E este continuou:
— Vamos dar o descanso merecido aos nossos vasekulu-vonjango. Duas vezes por semana, pelo menos, é organizar onjuluka[9] para cultivar nas lavras dos nossos vasekulu. Ouvi também que um deles quer casar mais uma mulher e não tem casa. Então, como sempre fazemos, os homens nos adobes, as mulheres no capim e na água e na comida. É ou não é?!
— Éééééé! — ouviu-se a aldeia em coro, satisfeita pelo nobre gesto, mas foi de pouca dura, uma vez que o Rei continuou:
— O mbwale[10] Kataleko vai cuidar do património! — a plateia reagiu com estupefacção, pois tratava-se de um surdo-mudo. Como prestaria contas, se não sabia ler? — Mbwale Ngandu é o conselheiro! — as palmas não conseguiam abafar os cochichos. O nomeado era cego. Como diferenciaria manhã de tarde, nos dias em que faltasse a quentura do sol? — Mbwale Simbwokemba vai cuidar da ordem! — e lá estava outra vez a aldeia a resmungar. Como aplicaria bofetadas correccionais, sendo ele paralítico dos membros inferiores? Pediria ao réu para abaixar?

Se era impensável contrariar abertamente, não se conseguia porém tomar como normal a nomeação de um conselho da Ombala formado na íntegra por ovifeto (rascunhos na língua Umbundu). Pessoa com deficiência fora sempre vista como ocifeto (obra inacabada). Raramente chegava a casar. O ancião Ndya-Ngenda, que nutria mais amor pelo kaporroto do que pelas suas duas mulheres, era impecável em conversas paralelas, quase sempre inconvenientes. A cada surpresa, um franzir de testa e um provérbio de repulsa. «Ocilema vacitaisa, ka vawutola[11]».
Nos protestos alinhavam também, de corpo e alma, progenitores de rascunhos. Mas virulento como o ancião Ndya-Ngenda, não havia. Veio dele este boato: «Soma wakava okuyeva kowiñi, oyongola okuyevelela kongolo[12]». Especulava-se que ao Rei ficaria facilitada a usurpação do património, a cargo de um surdo-mudo, porquanto, e outra vez recorrendo à força destrutiva de um provérbio, «camanle calinga eti mbanje, ka calingile eti mopye[13]». Ao conselheiro faltariam fundamentos para criticar; «ocili viso[14]». Por outro lado, «U kwendi laye ka kukutila ko epunda[15]», daí o paralítico.
O Rei, inspirado num daqueles sonhos reveladores que só aos nobres calham, seguia apenas a recomendação de ter o mais expressivo simbolismo para o exercício assertivo do poder: de vez em quando, um líder precisa de experimentar a cegueira para superar seus medos, da paralisia para a prudência na tomada de decisões, e fazer-se de surdo-mudo para a diplomacia e cortesia. Era isso.
Os percalços da inovação eram logo visíveis no começo das actividades do recém-eleito Conselho da Ombala. Desde que mundo é mundo que os seres humanos estão condenados a minimizar as suas fraquezas, logo com eles não era diferente. Às vezes, com a força dos copos, ficava a nu o revanchismo. Para o cego, o surdo-mudo era inútil, por colocar gestos no lugar das palavras, como se também conseguisse captar movimentos e arco-íris na largura dos olhos. O paralítico julgava-se o maior de todos, na altura que o busto lhe permitia. O surdo-mudo achava despida de sentido a vida, sem ver nem correr. E da Ombala, a rivalidade espalhou-se pelos rascunhos mais anónimos, crescendo as chacotas e a rabugice por conta do favoritismo das famílias.
Tinha chovido a noite inteira. No kimbo, depois da chuva, aos olhos do velho de chapéu, as gaivotas são outras crianças, com a vantagem apenas de andarem mais perto do céu. Manhãs assim, não há como não serem inspiradoras. O Rei dirigiu-se aos conselheiros:
— As mulheres têm a mania de achar que os homens são péssimos cozinheiros, não é isso?
— É sim, ó mais-velho. — anuíram os três em simultâneo.
— Pois, hoje vai ser um dia diferente. — anunciou o Rei. — Vamos almoçar ohita[16] com ocipoke[17] e efwanga[18]. Cada sekulu se encarrega de uma panela. Temos os ingredientes, a lenha, o petróleo e o isqueiro, as panelas de barro também. Portanto, cada um vai preparar a lareira, de uma pedra apenas. É para essas mulheres nos respeitarem.

No fim da tarde, apresentaram-se ao Rei, envergonhados e esfomeados. Fora um fiasco a incumbência. Impossível cozinhar na lareira de uma pedra de apoio apenas. Perceberam então que o poder é uma panela ao lume, que exige equilíbrio entre as três pedras sobre as quais assenta.
Unindo os rascunhos da Ombala, uniam-se os demais. Desde então, vêm conquistando a sua dignidade. Mas não faltam lugares, neste mundo do agreste, onde tarda chegar o exemplo do Reino dos Rascunhos. E de como a luta nasceu, o Rei não esquece nem recalca.

Gociante Patissa, in «Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas» (pág. 33-40). GRECIMA. Programa Ler Angola. Luanda, 2014


[1] Anciãos conselheiros.
[2] Milícias.
[3] Elefante.
[4] Leão.
[5] Hipopótamo.
[6] Viúvas.
[7] Aldeia do Soba grande; sede da autoridade tradicional e tribunal.
[8] Substituto é inferior ao dono.
[9] Trabalho colectivo voluntário.
[10] Ancião (enquanto título).
[11] Que o aleijado nasça na família, não se acolhe de outrem.
[12] O Rei fartou-se de ouvir o povo, agora quer conselhos do seu próprio joelho (ditadura).
[13] Coisa alheia é para ver apenas, não para falar.
[14] Verdade é o que for visto.
[15] Não te prepara a trouxa quem contigo não viaja.
[16] Funji.
[17] Feijão.
[18] Folhas de mandioqueira, iguaria conhecida também pelo nome Kimbundu de kizaka.